A Força do Cuidado
07/05/2026
Cuidar dos
irmãos, da casa, dos filhos, dos pais em algum momento. Mas, por favor, não se
esquecer de cuidar de si, da sua saúde, do seu corpo, das suas rugas, das
viagens que ainda estão em sonho, do seu time, da sua carreira.
Eu sou
mulher, sou mãe e sou RH. Então, pra mim e pra tantas mulheres, cuidar é um
verbo que grita, especialmente quando sentimos que falhamos em algum desses
campos.
Mas, vou me
permitir, nesse momento, sair do papel de cuidadora e lembrar de um momento em
que me senti extremamente cuidada. Em 2024, eu engravidei e – curioso - a
primeira coisa que pensei não foi sobre a barriga, nem sobre o parto. Foi sobre
a minha carreira. Será que sigo nesse ritmo sem frear?
Primeira
resposta: não. É preciso desenvolver talentos que mentor nenhum vai te ensinar.
É você e a sua cria. São vocês dois (no meu caso, nós duas) aprendendo juntas:
ela a viver, eu a parar de viver um monte de coisa, pra renascer nesse papel.
E nesse
momento tão louco e sublime, estar em uma organização que dê o conforto de
passar por essa transição com mais fôlego muda a experiência da maternidade.
Afinal, cuidar de um ser humaninho é um projeto gigante. É preciso atenção,
paciência, e planejar um futuro que certamente vai te surpreender. Isso tudo
demanda tempo e energia.
E aí veio o
momento em que pude entender que o freio era seguro. Primeiro, um plano de
saúde que me trazia a tranquilidade de um parto bem amparado. Depois, um time e
um gestor absolutamente sensíveis a esse momento, que prestaram atenção e me
acolheram mesmo quando eu nem achei que precisasse.
Eu
engravidei e o idg tinha a sorte de termos uma substituta maravilhosa: a Thays,
na época, coordenadora de RH, experiente e com um trabalho muito respeitado no
idg. Tudo certo. Viva o plano de sucessão. E vivam as surpresas da vida. Quando
contei a ela que ela iria me substituir na minha licença maternidade, veio a
grande notícia: “também estou grávida”. Sim.
É por isso
que esse artigo não pode ser sobre a minha trajetória, mas sobre a nossa. E
sobre como eu, a Thays e tantas outras existimos como mãe no idg.
Thays não me
substituiu na minha ausência, mas foi promovida a Gerente enquanto estava
grávida. Fomos até o final da reta das barrigas enormes, juntas. Tivemos nossa
licença maternidade estendida e um retorno respeitoso: mais dois meses podendo
ser cumpridos em home office e por meio expediente. Quando voltamos à rotina
presencial, tivemos a possibilidade de utilizar uma sala de amamentação, pra
facilitar a retirada do leite, pra quem segue com o aleitamento materno. Reencontramos
nossos lugares, e eles estavam ali bem cuidados. Sentir que você pertence a um
lugar significa saber que seus desafios pessoais não são vistos como problemas,
mas como parte da sua trajetória.
Poucos meses
depois, fui promovida a Gerente Geral de RH no idg. Freei, não parei. A vida
aconteceu. Filhos trazem alegrias, desconfortos, renúncias e muita potência
também. E a valorização de "quem
cuida" gera um ciclo de engajamento onde o colaborador entrega o seu
melhor por se sentir respeitado. Sábias as organizações que conseguem reconhecer
isso.
Respeitar a trajetória da maternidade não é concessão, é sensibilidade e estratégia.
Por Isabella de Faria Carneiro – Gerente Geral de Recursos Humanos
SXSW 2026: o que Austin revelou e o que o Brasil já sabia
20/03/2026
Quando você vai ao South by Southwest pela primeira vez, ninguém te avisa que o festival mais importante do mundo de inovação e cultura é, na prática, uma série de conversas em pé, na calçada, entre um painel e outro.
O que de fato acontece está nas margens. Nos corredores, nos bares abertos até tarde, nos encontros entre pessoas que trabalham com música, impacto, tecnologia e territórios — e que raramente ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Em Austin, estavam. Sem agenda de vendas, sem protocolo. É o tipo de encontro que não se agenda, mas que muda o que você vai fazer nos próximos meses.
No palco, o SXSW 2026 foi dominado pela inteligência artificial. Mas o que mais me interessou não foi o barulho em torno dela e sim o contracanto que foi surgindo ao longo dos dias.
Jonah Peretti subiu ao palco com os slides fora de ordem e a conexão falhando. Improvisou e talvez tenha sido a apresentação mais honesta da semana. O argumento central: a internet ficou chata. As plataformas otimizaram tanto o engajamento que acabaram sufocando a criatividade. Viraram fábricas de conteúdo previsível.
Sua aposta é que o futuro não está nos grandes feeds públicos, mas em espaços menores, com curadoria e identidade, onde experiências são genuinamente compartilhadas entre pessoas com referências em comum. Onde o valor não é gerado pelo algoritmo, mas pela cultura. O que a grande tecnologia não consegue automatizar é exatamente isso: comunidade, cultura e gosto.
Isso me atravessou de forma muito concreta. Porque é exatamente o que os projetos do idg já praticam: a curadoria como ato de identidade, a experiência compartilhada como geradora de vínculo real, a cultura como infraestrutura de conexão humana.
O que Peretti está tentando reconstruir no digital, nós já construímos no físico. E esse reconhecimento, de que escala sem alma cria deserto, abre uma janela de oportunidade enorme para quem, como nós, sempre apostou na profundidade.
Esse fio atravessou diversos painéis. A pergunta que ficou no ar não era 'o que a IA vai fazer?', mas 'o que só humanos conseguem criar?'. Para quem trabalha com cultura, essa não é uma pergunta retórica. É um mercado se abrindo.
A São Paulo House foi, para mim, o espaço que melhor respondeu a essa questão... não em teoria, mas na prática.
Com uma curadoria estruturada em eixos que iam de tecnologia a ESG e cultura, a SP House criou algo que o próprio SXSW, em muitos momentos, não conseguiu: profundidade. E trouxe para dentro da casa nomes centrais do festival.
Amy Webb - uma das vozes mais acompanhadas da semana esteve na SP House e destacou que o Brasil tem um senso de comunidade e pertencimento que pode se tornar um diferencial estratégico em um mundo cada vez mais digital e fragmentado: “Eu acredito profundamente que o Brasil vai ser importante nesse cenário.”
Parabéns à Marília Marton, à equipe da Secretaria de Cultura e ao Franklin Costa pela curadoria. A SP House foi o espaço que mais conectou inovação às causas que realmente importam e isso fez toda a diferença.
Tive a oportunidade de apresentar na SP House no dia 15. Falei sobre como acreditamos que a cultura pode ser o principal vetor de transformação real no campo do ESG — não como apêndice de relatório, mas como centro da agenda.
E foi ali que senti com mais clareza algo que vinha se desenhando ao longo da semana.
O debate sobre o que nos faz humanos diante da IA sobre conexão, imaginação e pertencimento chegou ao SXSW com urgência. E é uma conversa importante. Mas, no Brasil, ela já tem endereço. Ela acontece nos museus, nas periferias, nas comunidades. Silenciosamente, com consistência.
Nossa criatividade não nasce de laboratório. Nasce de território, de diversidade, de necessidade. De fazer muito com o que existe. De construir projetos que transformam realidades, que abrem horizontes, que mudam a vida de quem os atravessa.
E isso nenhum algoritmo treina.
Voltei de Austin com mais perguntas do que respostas, mas com algumas certezas fortalecidas.
A primeira: estar presente nesses espaços importa. Não para absorver tendências, mas para afirmar posição. O Brasil não precisa chegar ao SXSW como quem aprende, pode chegar como quem tem algo a ensinar.
A segunda: o momento é agora. Quando o mundo começa a perceber que escala sem identidade é vazio e que tecnologia sem propósito é ruído, o que construímos aqui, com cultura, impacto e enraizamento, passa a ter um valor muito maior do que imaginávamos.
No fim, o que vale não é a ferramenta. É o que você faz com ela para transformar a vida das pessoas.
Como canta o BaianaSystem: “não importa o que você sabe, o que importa é o que você faz com o que sabe.”
E nisso, temos muito a dizer — e ainda mais a fazer.
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