No ordenado do Frevo: trabalho e organização política no Carnaval do Recife

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No ordenado do Frevo: trabalho e organização política no Carnaval do Recife

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O Paço do Frevo é uma das casas da manifestação cultural pernambucana, patrimônio imaterial do Brasil e da Humanidade.

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“Cordas, cordas, cordasTantos sons, cordões, alegoriasTem cetins na avenidaCorredores de tapetesOs garis tocam trompetesProstitutas e pivetesBatem palmas pros garçonsSão pescadores, marinheirosSão jornaleiros, cobradores (...)” Bloco do cais - Nuca Sarmento e Eriberto Sarmento(interpretação: Orquestra Malassombro) Para espanar, recomenda-se usar um espanador. Para varrer, uma vassoura. E para caiar de branco uma parede? Um caiador, é claro. Esta parece, à primeira vista, uma simples lista de objetos de trabalho, mas o que esses nomes têm em comum? Para além de instrumentos laborais, eles têm relação com o Frevo pernambucano, manifestação fortemente marcada por nomenclaturas que remetem ao cotidiano trabalhador e seus objetos. Tanto nos nomes dados aos e movimentos da dança do Frevo, como Tesoura, Parafuso, Ferrolho, quanto nos títulos de jornaizinhos carnavalescos de clubes pedestres do Recife do início do século 20¹.  — Passos de frevo Parafuso (acima) e Tesoura (abaixo). Perceptível a relação do movimento corporal com o movimento desses objetos, seja de torção ou de compressão e expansão. Crédito: Projeto Trançados Musculares. Em cena, o passista Gil Silva. Essa relação não é sem razão: Tais agremiações reuniam parte significativa dos trabalhadores da cidade, uma população majoritariamente pobre e negra. Ou seja, seus jornaizinhos operavam como um importante instrumento de comunicação e difusão dos seus grupos². Neles, divulgavam a lista de integrantes, piadas picantes sobre o cotidiano da cidade e a vida política, assim como anunciavam suas novas canções e repertório. De fato, um panfleto-portfolio. Para o Clube Vassourinhas, A Vassoura foi seu jornal e objeto de trabalho. O mesmo ocorreu com os Clube Espanadores que editavam, por exemplo, O Espanador. — Capa do jornalzinho carnavalesco A Vassoura, 12/02/1899. Fonte: Coleção de Jornais do Século 19 – Companhia Editora de Pernambuco Mas o que explicaria tal coligação tão intensa do Frevo com o mundo do trabalho (e, por tabela, seus objetos)? O momento histórico e social que a manifestação surge nos dá pistas muito importantes. No final do século 19 e início do 20, o Brasil vivia ebulições sociais relevantes, como a abolição da escravatura, que remodelou a sociabilidade de pessoas negras pelo país, produzindo migrações entre o campo e a cidade, com pouca oferta de recursos de cidadania como educação e emprego, resultando em novas modalidades de marginalização, informalidade e desigualdade social. Além disso, é, finalmente na virada dos séculos 19 e 20, que, em Pernambuco e no Brasil, há os primeiros grandes impactos da industrialização a nível global, com a construção de indústrias têxteis, expansão de malhas ferroviárias e portos marítimos. Ou seja, é nesse contexto de ebulição que estivadores do porto, ferroviários, cigarreiras e cigarreiros, verdureiras, quituteiras, varredores, e trabalhadores de todo o tipo, circulam e interagem pela cidade, juntam-se e, sobretudo, se protegem em grupos diversos. Ou seja, não é difícil olhar para clubes pedestres (oficialmente Clubes Carnavalescos Mistos) e ver, por trás, sindicatos em festa, associações de ajuda mútua, espaços de amparo e autocuidado para essas populações. Fantasiar-se, aprumar-se, perfumar-se e ir para rua eram atos de fortalecimento de autoestima, reconhecimento público e um importante contra-ataque aos olhares segregacionistas que perseguiam tanto simbolicamente quanto fisicamente as agremiações oriundas de grupos populares. Diversas ações do estado foram empregadas para vigiar, limitar o uso do espaço público e violentar sujeitos fazedores de Carnaval. Logo, agremiar-se era estratégia de sobrevivência. Essas alternativas foram postas em prática desde muito cedo. Em 1889 – no primeiro Carnaval do pós-abolição e meses antes da Proclamação da República, só firmada em novembro, bem depois da folia – surgiam no Recife o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas e a Troça Carnavalesca Mista Verdureiras de São José. — Estandarte do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas (CCMV). Acervo Paço do Frevo. (Foto: Hugo Muniz) — Estandarte da Troça Carnavalesca Mista Verdureiras de São José. Acervo Paço do Frevo. (Foto: Hugo Muniz) Ambas em atividade até hoje, possuem estandartes que fazem parte do acervo do Paço do Frevo, museu no Recife e Centro de Referência em Salvaguarda do Frevo (Iphan, 2017), e estão, hoje, na exposição Trabalho de Carnaval da Pinacoteca do Estado de São Paulo até o dia 12 de abril de 2026. Junto deles, na exposição, alguns fac-símiles dos jornaizinhos carnavalescos também ajudam a contar essa história. Trajetória de homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras pretas e indígenas, que rasgavam as ruas do Recife à força, com parafusos e tesouras, e desempoeiravam os desafios do cotidiano com vassouras e espanadores em busca de um ordenado justo. Justo como o Frevo. - ¹Para navegar, online e de qualquer lugar, nas páginas desses jornaizinhos consulte a Coleção Online de Jornais do Século XIX da Companhia Editora de Pernambuco – Cepe e a Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional – HDBN ²Para entender mais sobre o contexto histórico e social dos jornaizinhos carnavalescos vale a leitura da dissertação de mestrado intitulada Periodismo folião: jornais carnavalescos dos clubes pedestres recifenses no alvorecer da República.  

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Paço do Frevo

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